Ação frenética…

Quando me dou conta, a parte interna do cotovelo de meu agressor passa por cima de minha cabeça, acompanhado de um punho que tinha como endereço certo a minha região da têmpora, não sei como desviei de tal ataque. Em seguida, ao recobrar minha posição ereta, vejo meu agressor em estado de euforia,suas veias do pescoço saltadas, ambos os braços esticados ao lado do corpo e um olhar que desafia a consciência humana e se aproxima mais de um predador olhando para a vitima, sei que ele não pretende errar o próximo ataque.

Meu corpo faz sua parte, diante do perigo, ele libera adrenalina suficiente para meus reflexos de pessoa sedentária ao menos se tornarem suficientes para a sobrevivência. Meu agressor novamente dispara em minha direção, tento raciocinar qual atitude defensiva tomar, e no meio do pensamento sou atingido na boca do estomago por um soco certeiro. Começo a envergar para frente, os olhos  e corpo traçando uma trajetória descendente, se comecei isso olhando os olhos do meu agressor, agora observo seu queixo e já começo a olhar a base de seu pescoço, em poucos segundos estarei olhando o chão, e se os olhos de meu agressor comunicaram corretamente suas intenções, estarei em algum momento observando os olhos de meu criador…. porém novamente meu corpo reage antes de meu cérebro, minhas pernas me projetam para frente e o topo de minha cabeça acerta o queixo de meu agressor com força suficiente para joga-lo para trás e abrir um corte em minha cabeça. 

Meu cérebro, dessa vez agindo em conjunto com os instintos de sobrevivência, decide que atacar será a estrategia da vez, e procura os alvos para causar a maior dor em meu agressor da unica maneira que eu sei: buscando pela memoria quais os locais onde eu já senti mais dor… a lista inclui canela, saco escrotal e palma da mão. Desfiro um chute de esquerda e acerto por pouco a canela direita de meu agressor, ele arqueia para frente, abaixando procurando colocar as mãos sobre sua canela, nesse momento agarro a cabeça do mesmo e nos poucos instantes que nossos olhos se cruzam novamente, vejo uma mistura de descredito e confusão, em seguida impulsiono com toda a minha força meu joelho direito contra seu queixo, e após o golpe consigo derrubar meu agressor.

Fico observando o mesmo tentar se levantar, e fico repetindo baixinho “não, não, não”… quando o mesmo parece que vai se levantar, quatro guardas municipais conseguem passar pela pequena multidão que se formou em volta de nós e dois guardas me seguram enquanto outros dois levam meu agressor para o outro lado, o mesmo com a cara sangrando de um possível nariz quebrado. Quando chego a delegacia para prestar esclarecimentos, sou informado que eu havia impedido um assalto por simplesmente estacionar meu carro na frente da loja alvo de maneira pouco cuidadosa e ter acertado a guia, com o barulho resultante ser suficiente para que os seguranças da loja que estavam distraídos ficassem alertas novamente. Meu agressor era o olheiro dos menores que haviam sido ‘contratados’ para fazer o serviço, e o fator surpresa era essencial para o roubo funciona-se. Diante da frustração e da fuga dos menores, o olheiro passivo torna-se meu agressor ativo.

Sou dispensado  da delegacia e informado que meu agressor fora preso em flagrante por agressão corporal, o delegado me informa que eu terei que voltar para continuar com o processo e que eu deveria andar com cuidado na rua, pois esse tipo de gente era perigosa. Possivelmente sabendo do que iria ocorrer em seguida, e observando meu porte fisio bem abaixo do que seria esperado para alguém ter alguma chance de alto defesa, o mesmo me fornece um colete a prova de balas, o que me deixa bem assustado…

Ao sair para comprar pão no dia seguinte, o clima frio da manhã permite disfarçar melhor o volume do colete, colocando um moletom por cima. Retorno para minha casa e na hora que estou virando a chave no portão, ouço um carro diminuir atras de mim e alguém diz meu nome, quando me viro um homem com capuz de dentro do carro esta com uma arma a menos de 1cm do meu corpo, não vejo minha vida passar diante dos meus olhos, simplesmente o pensamento de que morreria ali, na porta de casa. Por instinto tento golpear o homem com meu braço direito, novamente o instinto de sobrevivência falando mais alto que a logica do meu cérebro, e ao acertar o rosto do mesmo ouço o som do disparo e o impacto na região do abdome, porém não sou impulsionado para trás pois meu agressor já havia agarrado o colarinho da minha blusa de moletom e me puxa para dentro do carro, em seguida ouço mais dois disparos, mas por pura sorte, minha perna forçou o braço com a arma a abrir o angulo e nesse momento a arma esta mirando para o chão e não para o meu corpo. Começo a me debater dentro do veiculo do meu agressor, utilizando cotovelados em seu rosto com meu braço direito enquanto utilizo o esquerdo procura apoio para me impulsionar para fora do carro. Quando acho que vou conseguir sair, minha mão esquerda apoia em um celular que estava no bando do passageiro e escorrega desbloqueando a tela do mesmo, caio novamente e novamente o pensamento de morte passa pela minha cabeça. Desfiro uma ultima cotovelada no rosto de meu agressor, o mesmo solta meu colarinho e num impulso consigo sair do carro, meu agressor derruba a arma e sai em disparada com seu veiculo.

O mesmo delegado que me havia fornecido o colete atende ao chamado em frente a minha casa, ri de mim e diz: eu te disse que o colete seria útil. O socorrista me informa que eu dei sorte duas vezes em dois dias, e que uma hora minha sorte iria acabar. A arma de meu agressor estava em péssimo estado, as balas velhas, e por isso o colete conseguirá segurar um disparo tão próximo. O delegado dessa vez diz algo que eu ja sabia: eu tenho que mudar de casa, pois esse ataque não foi aleatório.

Como resultado dos meus dois últimos dias, minha historia foi parar na TV, virei uma minha celebridade, e meu chefe, comovido com a situação, me manda trabalhar em uma filial em outro estado, pelo tempo que for necessário, mas que a companhia não iria fornecer nada além da vaga, e que eu deveria procurar moradia por conta própria. Meu voo sai na mesma noite.

Embarco no avião olhando e pensando em tudo que deixo para trás, a casa que cresci, amigos de infância, uma vida, que poderia ter acabado no centro da cidade ou na porta de casa. Acredito que isso seja um sinal que eu deveria mesmo ir para outro lugar. Enquanto caminho para minha poltrona, na fileira a frente da minha vejo um homem, mais jovem do que eu,  mexendo em seu celular. Quando finalmente me sento em minha cadeira, o capitão inicia os procedimentos de decolagem e em poucos instantes estamos no ar, eu voando em direção a uma nova vida. O capitão avisa que ira desligar as luzes para que todos possam dormir, e nesse instante observo novamente o homem mexendo em seu celular, que esta aberto no perfil de uma rede social. Consigo ver claramente o perfil e noto que é a mesma tela que vi quando desbloquiei o celular de meu agressor em frente a minha casa.

As luzes se apagam, o homem apaga a tela do celular e a penumbra se instala dentro do avião, esse será um longo voo, espero que minha sorte tenha me acompanhado e não acabado…

..acordo com o celular vibrando devido a falta de bateria em minha cama, é um novo dia que começa, após um sonho digno de filme de ação…